Era alguém relativamente novo, já um balzaquiano, mas espírito
jovem. E no alto de seus trinta e poucos anos parecia inquieto. As relações amorosas
seguiam uma tendência que não fazia muito a sua cabeça. Afinal trazia em sua essência
um romantismo que para muitos estava fora de moda. Aquele tipo de pessoa difícil
de encontrar (não conheci ninguém parecido): Amoroso, chocólatra “controlado”, oferece
água pra visita, esquece de devolver a caneta emprestada, coração mole, doce, sensível,
que conversa com o olhar... Pode isso? Conversar apenas com um olhar? Não só
podia como o fazia de uma maneira que encantava! Gostava de tocar, olhar nos
olhos, escrever, fotografar...
Sua personalidade talvez um tanto quanto instigante... Não
come japa, não acha graça nas relações fast food, escuta Rock e sertanejo, bebe
água com gás, e em pleno século Zap Zap, uma contradição: adora trocar correspondências
escritas de próprio punho com alguém que conheceu pela internet.
E por falar em Internet ...
A moda da vez aguçou a sua curiosidade num fim de tarde de
domingo. O melhor amigo, o amigo da amiga, alguém do trabalho, tinham comentado
sobre um tal de Tinder. No meio virtual chovem anúncios de sites de
relacionamento, namoro grátis, encontre seu par perfeito... Tinder não era um
nome nada familiar, mas apesar da pouca habilidade com smartphone, android,
ios, whats, estava aberto para conhecer mais aquela novidade. Tudo bem que se
tratava de alguém realmente desligado em alguns pontos do “assim caminha a modernidade”, mas era um sujeito divertido, companhia agradável, ligado a família
e torcedor apaixonado de um time difícil de acreditar.
Bom, resolveu experimentar! Sentiu-se atraído pela
possibilidade de conhecer como tudo aquilo funcionava e porque tanta gente
buscava esse aplicativo como alternativa para se relacionar. Poderia muito bem
estar ali apenas pra bater papo, conhecer novas pessoas, ampliar o seu ciclo de
amizades... E era isso. Não criou nenhuma expectativa em conhecer ninguém extra
Tinder. Não sabia o que esperar daquele cardápio humano! Sim, era basicamente
um cardápio. Se imagine num restaurante: o garçom lhe oferece o cardápio, você
pega, abre, olha com aquela cara de interrogação e solta aquele Hummmm que será
que vou querer? Diante de tantas opções (e é opção que não acaba mais) dá até
uma duvidazinha de ousar escolher algo mais exótico ou experimentar algo novo,
diferente de tudo que tenha provado. Foi essa a impressão que teve.
Claro que as impressões e percepções são muito peculiares. Por
exemplo, há quem reaja de maneira muito natural diante de uma mudança de
emprego que será um giro de 360 graus. È admirável a capacidade dessas pessoas
de lidar com tamanha ansiedade. Mas não se pode esquecer que existe um determinado
numero de pessoas que sintam diferente, que não saibam lidar com o mesmo desprendimento.
E não há o que se julgar. Tampouco agir com ironia diante de alguém que talvez
só precisasse ouvir uma palavra de carinho para colocar em ordem a cabeça e o
coração.
Com o Tinder, o primeiro passo foi configurar sobre
suas preferências (homens ou mulheres, distância de busca, idades). Feito isso abriu o aplicativo e começou o que
seria um conhecimento e tanto. Melhor que saber a opinião dos outros era vivenciar
aquela experiência. De fato aquilo gerou uma expectativa inicial. Passou
algumas fotos daquele cardápio. Tinha de tudo: perfil sem foto, corpos expostos
de frente ao espelho e celular em punho, casal liberal em busca de adeptos às relações
abertas e dispostos a satisfazerem as suas fantasias sexuais mais diversas,
fotos sensuais e bastante sugestivas, fotos ao lado de carro, lancha, pontos turísticos
ao redor do mundo, com boné de aba reta e sem camisa em Jurerê Internacional,
na balada segurando Champagne com faísca e copo de led, fazendo carinho em
leão, outros com camisa pólo de gola levantada, etc. Por ser um cardápio, cada
um ali exposto deveria usar as armas que tinha para atrair a atenção de um possível
parceiro em potencial.
Nas descrições de perfis havia quem
optasse por não colocá-las, havia quem já falasse abertamente sobre seus
interesses, poupando o tempo com conversas desnecessárias daquele que estivesse
acessando o cardápio. Muito justo e legitimo. As mais comuns eram frases e
pensamentos de Clarisse Lispector. Tinha os que prometiam de pé junto que
jamais diriam que se conheceram ali, como se estar ali fosse algo que o
desabonasse. Muito estranho!
Havia até, para sua surpresa, pessoas
dispostas a um relacionamento sério. Surpresa
porque num bate papo informal numa mesa de bar no qual o assunto era justamente
esse foi citado por alguém do sexo masculino o fato de que 90% dos que ali
estavam, buscava apenas satisfação sexual. Poxa e se alguém não quiser isso ou
não somente isso, ou estiver buscando uma relação duradoura? Alguém que não está ali
com o propósito que acabei de escrever será julgado como “farinha do mesmo saco”?
Sua missão estava cumprida! O balanço dessa experiência pode-se
dizer que não foi das melhores. Das que seriam relevantes comentar, alguém que antes
mesmo de iniciar uma conversa, apenas disse que já estava abandonando aquele
app, (por qual motivo não soube) mas deixava outro contato se porventura
quisesse contatá-lo (o que não foi o caso nem seu interesse), alguém que após meia dúzia de palavras
conseguiu dizer “Por um momento eu olhei pra você e me vi ao seu lado e feliz...”
(Há duvidas, mas isso é realmente possível?) Tudo bem, não foi de tudo ruim. “Conheceu” pessoas estudadas, inteligentes,
conversa agradável e reencontrou alguém do passado.
Apenas um detalhe preocupou: a capacidade do “descarte”.
As pessoas entram e saem na vida uma das outras numa velocidade que assusta! Além
disso tem gerado pessoas cada vez mais inseguras. Até num bate papo pelo Whats
App com alguém que já te conhece ainda tem quem duvide do que você escreve, que dirá com quem não o conhece!
A única
certeza que teve é não estar disposto aos relacionamentos descartáveis. Não é o
seu perfil. Nada contra, mas no seu caso isso não alimenta, não é algo consistente, não faz sentido pra
sua vida. Pode-se dizer que está completamente aberto pra se envolver de verdade, e quem sabe com um pouco mais de prática não fique craque em bate papo on line e
adquira mais habilidade com esses recursos! Se encontrar alguém disposto
e que se mostre paciente com essa simples dificuldade, acho que conseguirá tirar isso de
letra! E isso, com toda certeza, não haverá de ser nenhum empecilho.
Foto: Line Aoli
Foto: Line Aoli

Nenhum comentário:
Postar um comentário