segunda-feira, 6 de abril de 2015

PROCURA-SE: ONDE ESTÁ O AMOR?



Onde está o Amor?

Sábio Carlos Drummond de Andrade já dizia: “Pois de Amor estamos todos precisados! Em dose tal que nos alegre, nos REUMANIZE, nos corrija, nos dê PACIÊNCIA e ESPERANÇA...”

Este é um trecho célebre de uma crônica do nosso poeta maior, datada de 1966, mas muito atual aos tempos de amor líquido no qual vivemos.

Pois bem, ao se deparar com uma triste e chocante noticia publicada a pouco menos de uma semana cada individuo apresentaria, diante desse assunto, uma reação.

Aproveitando o horário de almoço, me deparei com a manchete sobre um senhor de 77 anos, aposentado, agredido e encontrado morto, depois de ser surpreendido, pelo vigia, urinando num lote onde funcionava um estacionamento em Belo Horizonte.

Naquele momento, não pude ler a reportagem completa, mas o assunto ficou martelando o meu inconsciente e logo que cheguei em casa li todo o seu conteúdo.  Eu tremia da cabeça aos pés, o coração apertado, um nó na garganta e uma emoção que transbordaria em questão de tempo... Assim como acontece com o leite que ao ferver transborda da caneca generosamente! Sem o menor pudor eu chorei copiosamente... Um choro livre... Uma reação tão espontânea e tão intensa como poucas vezes tinha sido presenciada por minha mãe e que me dizia: “calma minha filha, calma!”

Poderia ser mais uma tragédia dentre as inúmeras que ganham repercussão dos meios de comunicação que cada vez mais “apavoram” os seus usuários com noticias que envolve apenas as coisas ruins feitas pelos seres humanos. Mas não, este seria o ponto de partida para um duro questionamento: O que foi feito do ser humano? Onde está o Amor? Que comportamento vazio, desumano, egoísta é esse do qual temos nos apropriado cada vez mais? Aonde foram parar o respeito, a gentileza, a tolerância, a delicadeza e amor ao próximo?

Alguns vão pensar: “La vem ela com esse assunto moralista de respeito, de amor e de ‘Gentileza gera Gentileza’que estamos carecas de saber e ouvir!” Desses, eu dispenso qualquer tipo de comentário! O assunto é sério, minha gente! Estamos diante de relações humanas no qual o AMOR não tem mais o mesmo significado, foi levianamente alterado como algo flexível, totalmente diferente do seu verdadeiro significado de durabilidade e perenidade. Os relacionamentos, por exemplo, estão sendo tratados como meras mercadorias e se existe algum "defeito" podem ser trocadas por outras! Não gostou, troca. Assim ninguém sofre.

Mas ao contrário do que se pretende estamos criando uma nova ética de relacionamentos mais fragilizados e desumanos. Uma vez li um texto que trazia o pensamento de que “confiança no próximo está cada vez mais próxima de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos. As relações terminam tão rápido quanto começam. As pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas.” E aqui estamos falando de qualquer tipo de relação: de amigos, amantes, parceiros, namorados, noivos enfim de toda e qualquer forma de se relacionar. O amor líquido segundo Bauman, em seu livro intitulado “Amor Líquido”, representa justamente essa fragilidade dos laços humanos e a flexibilidade com que são substituídos.

E não é preciso ir muito longe: em tempos de violência e insegurança o medo tomou conta das pessoas de tal forma que se um estranho cumprimenta outro na rua, ele não só não será respondido como também tal comportamento será julgado ofensivo e estranho.  Os tempos mudaram sim e talvez tenhamos que adotar uma postura mais fechada diante de algumas situações até para nos preservar.  Mas existe também uma necessidade de preservar esses outros valores citados anteriormente (respeito, gentileza, tolerância, delicadeza e amor ao próximo).

O senhor da reportagem a qual citei no começo deste texto tinha câncer de próstata em estado avançado e iniciaria tratamento no fim deste mês. O que aquele vigia desconhecia era que aquele senhor pego urinando no lote sofria de incontinência urinaria, estava com a saúde debilitada, totalmente fragilizado e preferiu entrar no lote assim que sentiu necessidade de ir ao banheiro para não fazer as suas necessidades na rua e na frente de todos. Imaginem só, alguém agredido com chutes e pontapés porque foi pego urinando num lote?  Muitos de nós agiria impulsivamente dizendo: Prendam esse homem, é atentado ao pudor! Será que este senhor não se lembra dos bons costumes? Q absurdo, que pouca vergonha!”

Pobre coitado, nem deve ter tido tempo de justificar a sua atitude. Morreu ali mesmo, vítima da intolerância e estupidez humana. Na reportagem de um jornal de grande circulação da capital, amigos contam que ele ‘ensinava bondade’. Ironia do destino, tudo de que ele precisava naquele momento era da bondade daquele que infelizmente cruzou o seu caminho. Bondade que ele tanto ensinava!

É mesmo o fim dos tempos: Muito obrigado, me desculpe, posso ajudar; termos que estão cada vez mais esquecidos no nosso dia a dia. E os exemplos não param por aí: Intolerância com os idosos e agressões a crianças; mães que jogam fora seus filhos recém nascidos, pais que agridem e matam os próprios filhos, filho que agride e mata os pais. E tantos outros exemplos que ocupariam páginas e páginas deste texto.

É assustador como o comportamento humano tem se tornado cada dia mais agressivo por falta de Amor, falta desse sentimento tão genuíno que, como dizia Drummond, nos reumanize, nos dê paciência e esperança. É a constatação da falta desse sentimento tão banalizado atualmente: mata-se em nome do amor, dizem eu te amo com a mesma facilidade com que trocam de roupa e nem sabem direito o que estão sentindo! 

Ame o teu próximo como a ti mesmo. É isso, ta explicado: incapaz de amar a si mesmo como será capaz de fazê-lo com o próximo?

Para refletir, fiquemos com o seguinte pensamento de autoria da qual desconheço, mas que traduz o sentido que eu assumo para concluir esse texto: “Amar ao próximo inclui principalmente ter amor próprio, pois o mais próximo que você tem de si é você mesmo”. Então, comecemos a mudança a partir de nós mesmo!

Imagem retirada do Google