Onde está o Amor?
Sábio Carlos Drummond de Andrade já dizia: “Pois de Amor
estamos todos precisados! Em dose tal que nos alegre, nos REUMANIZE, nos
corrija, nos dê PACIÊNCIA e ESPERANÇA...”
Este é um trecho célebre de uma crônica do nosso poeta maior,
datada de 1966, mas muito atual aos tempos de amor líquido no qual vivemos.
Pois bem, ao se deparar com uma triste e chocante noticia
publicada a pouco menos de uma semana cada individuo apresentaria, diante desse
assunto, uma reação.
Aproveitando o horário de almoço, me deparei com a manchete sobre
um senhor de 77 anos, aposentado, agredido e encontrado morto, depois de ser
surpreendido, pelo vigia, urinando num lote onde funcionava um estacionamento
em Belo Horizonte.
Naquele momento, não pude ler a reportagem completa, mas o
assunto ficou martelando o meu inconsciente e logo que cheguei em casa li todo
o seu conteúdo. Eu tremia da cabeça aos
pés, o coração apertado, um nó na garganta e uma emoção que transbordaria em
questão de tempo... Assim como acontece com o leite que ao ferver transborda da
caneca generosamente! Sem o menor pudor eu chorei copiosamente... Um choro
livre... Uma reação tão espontânea e tão intensa como poucas vezes tinha sido
presenciada por minha mãe e que me dizia: “calma minha filha, calma!”
Poderia ser mais uma tragédia dentre as inúmeras que ganham
repercussão dos meios de comunicação que cada vez mais “apavoram” os seus
usuários com noticias que envolve apenas as coisas ruins feitas pelos seres
humanos. Mas não, este seria o ponto de
partida para um duro questionamento: O que foi feito do ser humano? Onde está o Amor? Que comportamento vazio, desumano, egoísta é esse do qual temos nos
apropriado cada vez mais? Aonde foram parar o respeito, a gentileza, a tolerância,
a delicadeza e amor ao próximo?
Alguns vão pensar: “La vem ela com esse
assunto moralista de respeito, de amor e de ‘Gentileza gera Gentileza’que
estamos carecas de saber e ouvir!” Desses, eu dispenso qualquer tipo de comentário! O assunto é sério, minha gente!
Estamos diante de relações humanas no qual o AMOR não tem mais o mesmo
significado, foi levianamente alterado como algo flexível, totalmente diferente
do seu verdadeiro significado de durabilidade e perenidade. Os relacionamentos,
por exemplo, estão sendo tratados como meras mercadorias e se existe algum "defeito" podem ser trocadas por outras! Não gostou, troca. Assim ninguém sofre.
Mas ao contrário do que se pretende estamos criando uma nova
ética de relacionamentos mais fragilizados e desumanos. Uma vez li um texto que
trazia o pensamento de que “confiança no próximo está cada vez mais próxima de
terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos.
As relações terminam tão rápido quanto começam. As pessoas pensam terminar com
um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em
cima de problemas.” E aqui estamos falando de qualquer tipo de relação:
de amigos, amantes, parceiros, namorados, noivos enfim de toda e qualquer forma
de se relacionar. O amor líquido segundo Bauman, em seu livro intitulado “Amor
Líquido”, representa justamente essa fragilidade dos laços humanos e a
flexibilidade com que são substituídos.
E não é preciso ir muito longe: em tempos de violência e
insegurança o medo tomou conta das pessoas de tal forma que se um estranho
cumprimenta outro na rua, ele não só não será respondido como também tal comportamento
será julgado ofensivo e estranho. Os
tempos mudaram sim e talvez tenhamos que adotar uma postura mais fechada diante
de algumas situações até para nos preservar.
Mas existe também uma necessidade de preservar esses outros valores
citados anteriormente (respeito, gentileza, tolerância, delicadeza e amor ao próximo).
O senhor da reportagem a qual citei no começo deste texto
tinha câncer de próstata em estado avançado e iniciaria tratamento no fim deste
mês. O que aquele vigia desconhecia era que aquele senhor pego urinando no lote
sofria de incontinência urinaria, estava com a saúde debilitada, totalmente
fragilizado e preferiu entrar no lote assim que sentiu necessidade de ir ao
banheiro para não fazer as suas necessidades na rua e na frente de todos.
Imaginem só, alguém agredido com chutes e pontapés porque foi pego urinando num
lote? Muitos de nós agiria
impulsivamente dizendo: Prendam esse homem, é atentado ao pudor! Será que este
senhor não se lembra dos bons costumes? Q absurdo, que pouca vergonha!”
Pobre coitado, nem deve ter tido tempo de justificar a sua
atitude. Morreu ali mesmo, vítima da intolerância e estupidez humana.
Na reportagem de um jornal de grande circulação da capital, amigos contam que
ele ‘ensinava bondade’. Ironia do destino, tudo de que ele precisava naquele
momento era da bondade daquele que infelizmente cruzou o seu caminho. Bondade que
ele tanto ensinava!
É mesmo o fim dos tempos: Muito obrigado, me desculpe, posso
ajudar; termos que estão cada vez mais esquecidos no nosso dia a dia. E os
exemplos não param por aí: Intolerância com os idosos e agressões a crianças;
mães que jogam fora seus filhos recém nascidos, pais que agridem e matam os próprios filhos, filho que agride e mata os pais. E tantos outros exemplos que ocupariam
páginas e páginas deste texto.
É assustador como o comportamento humano tem se tornado cada
dia mais agressivo por falta de Amor, falta desse sentimento tão genuíno que,
como dizia Drummond, nos reumanize, nos dê paciência e esperança. É a constatação da falta desse
sentimento tão banalizado atualmente: mata-se em nome do amor, dizem eu te amo
com a mesma facilidade com que trocam de roupa e nem sabem direito o que estão
sentindo!
Ame o teu próximo como a ti
mesmo. É isso, ta explicado: incapaz de amar a si mesmo como será capaz de
fazê-lo com o próximo?
Para refletir, fiquemos com o seguinte pensamento de autoria
da qual desconheço, mas que traduz o sentido que eu assumo para concluir esse
texto: “Amar ao próximo inclui principalmente ter amor próprio, pois o mais
próximo que você tem de si é você mesmo”. Então, comecemos a mudança a partir
de nós mesmo!
Imagem retirada do Google
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