Não faz muito tempo...
Bastava fechar os olhos e me ver ali sentada na varanda, de
frente pro quintal. O cheirinho de terra molhada pela chuva, que encharcou durante
toda a madrugada, trazia lembranças da velha e boa infância. A terra agradecia
tamanha generosidade da mãe natureza. A horta parecia sorrir. Os pés de couve
pareciam mais verdes, um verde intenso. Da janela do quarto já alcançava o pé
de pitanga “carregadin”. E lá fora eram jabuticabas e abacates que não acabavam
mais.
Pela manhã ainda era possível ver as gotas de chuva e
orvalho que escorriam delicadamente das folhas de taioba. Curiosa desde sempre,
sabia que ao acordar a piscina estaria cheia. Era de se esperar, pois antes de
deitar ligávamos a mangueira para enchê-la... Após um mutirão e uma verdadeira
força tarefa da limpeza era tudo o que queríamos. Estávamos cheios de
expectativas para um dia de sol. Talvez até plantássemos sabão pra que ele
raiasse forte. E não é que dava certo!
Limpar a piscina era mais uma festa, uma algazarra... Era
divertido observar aquelas mãozinhas tão pequenas esfregando cuidadosamente
cada azulejo branco. E não eram poucos. As
lições de trabalho em grupo e divisão de tarefas já faziam parte da rotina dos
primos. Uns varriam o quintal, outros esfregavam o piso da varanda. Outros lavavam
a piscina. Alguns com a louça do café da manhã. Os meninos eram os mais
preguiçosos, mas acabavam entrando na onda. A área próxima da churrasqueira também estava
na lista. Afinal era o percurso garantido daquela correria toda.
Começo de férias escolares era assim. E o ponto de encontro já conhecido: Casa dos Avós.
Guerra de abacate podre, greve de fome comendo azedinho,
pique esconde, amarelinha, teatrinho, apresentação de dança, adedanha, chup
chup de Kisuco, desfile das primas ao redor da piscina, filme na seção da
tarde, bolo e guaraná para comemorar os aniversários, funeral de passarinho, barulho
de panela de pressão no fogão, tiro ao alvo com espingarda de chumbinho, procissão
da igreja, ida na sorveteria gela a goela depois do almoço, andar de carrinho
de rolimã na rua, jogar queimada, fazer fila para tomar banho, festa junina, casa
na árvore, milho assado no fogão de lenha e pão de sal quentinho no café da
tarde e de longe eu gritava: o meu é sem manteiga!
Vivíamos tempos de abundância. E não era de dinheiro. Tempos fartos: fartura de amor, alegria, conversa
fiada, riso frouxo, amizade, generosidade, e muita mais muita criatividade! Infância
de gastar energia brincando. Menino de pé no chão, sem pudores, correndo atrás das
galinhas e pegando manga no pé. Coisa que, nos tempos de hoje, foram substituídas
pela tecnologia.
Esse cheirinho da infância é coisa boa demais! Infância tem
um cheiro que não se perde com o tempo, tem um cheiro que fica. Mesmo quando a
gente cresce o cheiro está lá, fixo na memória e só de lembrar o sorriso já se
mostra no rosto!
Bem diz o ditado: recordar é viver! Hoje há de se perceber
em nós muita transformação! Transforma-se a casca e preserva-se também a essência!
Nós mudamos porque nos entregamos totalmente as nossas experiências,
participando de tudo que a vida nos revelou!
Mudamos mas o cheirinho da
infância continua inconfundível e guardado com muito carinho em nossos corações!
E pra você, qual é o cheiro da sua infância?
Foto: Arquivo pessoal Line Aoli
Foto: Arquivo pessoal Line Aoli

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