domingo, 24 de maio de 2015

QUAL É O CHEIRO DA SUA INFÂNCIA?



Não faz muito tempo...

Bastava fechar os olhos e me ver ali sentada na varanda, de frente pro quintal. O cheirinho de terra molhada pela chuva, que encharcou durante toda a madrugada, trazia lembranças da velha e boa infância. A terra agradecia tamanha generosidade da mãe natureza. A horta parecia sorrir. Os pés de couve pareciam mais verdes, um verde intenso. Da janela do quarto já alcançava o pé de pitanga “carregadin”. E lá fora eram jabuticabas e abacates que não acabavam mais.  

Pela manhã ainda era possível ver as gotas de chuva e orvalho que escorriam delicadamente das folhas de taioba. Curiosa desde sempre, sabia que ao acordar a piscina estaria cheia. Era de se esperar, pois antes de deitar ligávamos a mangueira para enchê-la... Após um mutirão e uma verdadeira força tarefa da limpeza era tudo o que queríamos. Estávamos cheios de expectativas para um dia de sol. Talvez até plantássemos sabão pra que ele raiasse forte. E não é que dava certo!

Limpar a piscina era mais uma festa, uma algazarra... Era divertido observar aquelas mãozinhas tão pequenas esfregando cuidadosamente cada azulejo branco. E não eram poucos.  As lições de trabalho em grupo e divisão de tarefas já faziam parte da rotina dos primos. Uns varriam o quintal, outros esfregavam o piso da varanda. Outros lavavam a piscina. Alguns com a louça do café da manhã. Os meninos eram os mais preguiçosos, mas acabavam entrando na onda.  A área próxima da churrasqueira também estava na lista. Afinal era o percurso garantido daquela correria toda.

Começo de férias escolares era assim. E o ponto de encontro já conhecido: Casa dos Avós.

Guerra de abacate podre, greve de fome comendo azedinho, pique esconde, amarelinha, teatrinho, apresentação de dança, adedanha, chup chup de Kisuco, desfile das primas ao redor da piscina, filme na seção da tarde, bolo e guaraná para comemorar os aniversários, funeral de passarinho, barulho de panela de pressão no fogão, tiro ao alvo com espingarda de chumbinho, procissão da igreja, ida na sorveteria gela a goela depois do almoço, andar de carrinho de rolimã na rua, jogar queimada, fazer fila para tomar banho, festa junina, casa na árvore, milho assado no fogão de lenha e pão de sal quentinho no café da tarde e de longe eu gritava: o meu é sem manteiga!

Vivíamos tempos de abundância. E não era de dinheiro.  Tempos fartos: fartura de amor, alegria, conversa fiada, riso frouxo, amizade, generosidade, e muita mais muita criatividade! Infância de gastar energia brincando. Menino de pé no chão, sem pudores, correndo atrás das galinhas e pegando manga no pé. Coisa que, nos tempos de hoje, foram substituídas pela tecnologia.   

Esse cheirinho da infância é coisa boa demais! Infância tem um cheiro que não se perde com o tempo, tem um cheiro que fica. Mesmo quando a gente cresce o cheiro está lá, fixo na memória e só de lembrar o sorriso já se mostra no rosto!

Bem diz o ditado: recordar é viver! Hoje há de se perceber em nós muita transformação! Transforma-se a casca e preserva-se também a essência! Nós mudamos porque nos entregamos totalmente as nossas experiências, participando de tudo que a vida nos revelou! 

Mudamos mas o cheirinho da infância continua inconfundível e guardado com muito carinho em nossos corações!

E pra você, qual é o cheiro da sua infância?


Foto: Arquivo pessoal Line Aoli





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